Tabuinha de Escrever

Um espaço próprio de escrita e reflexão onde a vontade de se expressar é manifesta, assim como Zacarias alcançou seu desejo de expressão (cf. Lc 1.63 - Ed. Revista e Corrigida da SBB).

Name:
Location: Nova Friburgo, Rio de Janeiro, Brazil

Pastor e jornalista que teima em querer ser poeta.

Saturday, February 03, 2007

Elegia de Outono

Caem as tardes desses frios dias
ventos fortes em face a bater
no tempo a alma tu arrepias
e o sentimento que me faz sofrer.
Pois teu amor é como a sensação
das folhas de outono que o vento espalha
e qual tapete largadas neste chão
o meu amor sem teu favor encalha.

Ó amada minha, que dizem teus gestos
de expressivos, mitigados pela dor?
O meu coração, alinhava protestos
na ausência de expressão, das ações do teu amor.
Minha alma então, sonolenta e desavisada
em tua direção logo se põe a correr
e o vento soprando o corpo de minha amada
a leva pra bem longe, onde não a posso ter.

Os frutos ricos nos pomares abundantes
enfeitam as árvores e às folhagens dão cores.
O nosso amor, já não sendo como antes
me traz do teu corpo a falta dos sabores.
E choro por dentro e também choro por fora
como se a mendigar um pouquinho desse pão
porém a névoa densa que nem sempre vai embora
insiste em ressaltar toda a dor do coração.

Mas se no outono já tem frio, tem o vento, tem a chuva,
tem folhas secas espalhadas e é longa a madrugada!
Nesse tempo também tem: pinha, caqui, manga e uva
tão certo como me lembro da vozinha a goiabada.
Porém minha avó já morreu e o pomar já foi vendido
para um esperto judeu que transformou-o em lotes.
E o meu amor, como está? Da minha amada esquecido,
vive por este mundo, chateando-se com trotes.

Nova Friburgo, 30/05/2000 (7h25m)

A Coisa

De ter
e deter,
determinada
terminada
e minada
é nada
da
a
coisa
a
na
é aba
abando
bando
ou nada
da dona
abandonada.


Nova Friburgo, 28/05/2000 (13h27m)

Poema da Noiva de Maio

Ficastes noiva amiga;
ficastes noiva em maio.
Que farás da Tua vida,
vais brincar de “papagaio”?
Vais deixar de ser criança
ou “soprar balão no ar”?
Tu já sonhas com a festança,
do dia em que vais casar?

Do noivo, me fale agora:
Que camarada é esse?
Da infância que vai embora?
Da saudade que aparece?
Me fala noiva querida,
diz pra mim noiva de maio
que farás da tua vida:
realidade ou um desmaio?

Tu já sonhas com o véu,
grinalda e celebração?
Ore a Deus, busque no céu,
para ti uma aprovação.
Cante bem perto do ouvido
do teu amado exultante:
Tu és meu bem, meu querido,
te quero a cada instante!

Que farás noiva de maio:
Daqui pra frente viver?
A vida parece um raio
não custa a desaparecer.
Lembra-te do Eclesiastes:
viva bem com o teu amor.
Do coração já tirastes
um hino pro teu Senhor?

Agora tu tens no dedo
uma aliança brilhante.
Que te diz, “não tenhas medo,
cuidado com o rompante.”
Noiva do amor e de maio
já sonhas com o casamento
de matrimônio ele é laico
aguarde o melhor momento.

E tu mesmo o que é que diz
sobre o futuro num lar?
És da vida uma aprendiz
canta pra ele: “quero ser seu par!”
Mais que isto, noiva de maio
no dedo anelar pões aliança.
Faz do teu noivo poeta gaio
para o amor pague fiança.

E noiva de maio, não esqueças
de tudo que Deus te deu
e antes que adormeças
e grites que já venceu,
deixe teu coração se abrir
para o amor maior de Deus
e a vida irá lhe sorrir
para os sonhos que são teus.

Nova Friburgo, 27/05/2000 (11h24m)

Um Toque

Num instante o nosso toque
num só instante; a nossa sorte
já foi lançada e o meu enfoque
é fazê-lo firme, fazê-lo forte.
Foi pele com pele, suaves dedos
a deslizarem pelo seu braço
toque primeiro, ainda com medos
de se expandir para um abraço.

Nas contramarchas, no contratempos
tão perto respiro suave encanto
sentindo o sonho ao sabor dos ventos
viajar sem medos e sem espanto.
Mas quanta calma e quanto choro
que paradoxo é o meu amor
que em ti repousa em berço d’ouro
num simples toque do teu favor.

E quanto riso e quanto pranto
estranha forma de se amar
da triste lida o acalanto
meu coração vive a buscar.
Mas desse jeito e dessa história
de um toque leve e de raspão
fizeste registro bem na memória
dos meus sensores do coração.

Por isso canto, neste momento
do nosso toque aquela fagulha
acesa sempre em meu pensamento
minh’alma espetando, feito agulha.
Minh’alma tocando, feito piano
com mãos sensíveis a dedilhar
de um simples toque fazendo plano
de sempre sorrir, sempre te amar.

Nova Friburgo, 26/05/2000 (22h20m)

Poema para Clemir Fernandes

EM SEU CASAMENTO PLENO DE SONHOS E DE VERDES

Onde está Clemir
pra onde ele vai?
Vai pro Tocantins
encontrar seu pai.

O que vai fazer
o filho do Silva?
Vai fugir daqui
nesta comitiva.

Vai cantar bem forte
seu amor nascente
vai fazer uma festa
com a sua gente.

Na terra do côco
e do babaçu,
lá vai o Clemir
colher cupuaçu.

Vai com cheiro forte
de terra molhada
vai dizer “até a morte”
para a namorada.

Encontrar mãe Joelina
reencontrar “boneca”
com a cara mui alegre
e também muito sapeca.

Mas pra terra dele
vai de ônibus ou van?
Não importa minha gente
vale mesmo a Elcivan.

Onde está Clemir?
Já está em viagem?
Ele pensa bem feliz:
“Não pode ser miragem!”

E lá vai o Fernandes
bem cedo, rumo a roça.
Dessa vez, não como antes,
vai desposar a moça.

E há festa aqui na terra,
e há festa lá nos céus.
Pra alegria dos amigos
e do nosso bom Deus.

Mas será que volta
nosso amigo Clemir?
Ele é gente de lá
ou agora é daqui?

Sobre isso, todos sabem,
nosso amigo Clemir
já é homem do Mundo
em busca do seu devir.

E do nosso canto,
co’emoção disparada,
assim cantamos forte:
Clemir é bom camarada!

Clemir é bom camarada
e todos choramos por dentro
não poder estar com ele
juntos em seu casamento.

Por isso ao Pai rogamos
que os “silva” com os “lima”
formem lindo matrimônio
mais belo que a própria rima.

Querido Clemir finalmente:
“Tocantins” e não abro!
À Elcivan, um afago.
E nos vemos de repente.

Nova Friburgo, 26/05/2000 (22h49m)

Poema da Amada Enquanto Dorme

Amada minha
embora durmas
meus olhos vêem
as tuas formas.
Enquanto aninhas
meus sentimentos
meus olhos lêem
estes momentos.

Amada bela
coragem grande
tu és aquela
que o amor expande.
Tu és o grito
e o coração
por causa disto
tu és canção.

Amada linda
cabelos claros
corpo delgado
instantes raros.
O amor não finda
entre teus beijos
mesmo que acorde
dos meus desejos.

Amada jovem
pequenos seios
respira fundo
nos devaneios.
Sorriso breve
prolonga o jogo
dentes de neve
lábios de fogo.

Amada amante
sem te tocar
meu corpo queima
pois quer te amar.
Enquanto dormes
toda encolhida
respira a sorte
de minha vida.

Amada minha,
amada bela,
amada linda,
amor só dela.
Amada jovem,
amada amante,
amor de hoje,
amor infante.

Nova Friburgo, 26/05/2000 (21h55m)

Cantares Friburguenses

Entre serras e vales de luz
construída de modo altaneiro
está Friburgo uma urbe que seduz.

Que seduz com encanto verdadeiro
e sinuosa se mostra a quem a vê
despertando a paixão do amor primeiro.

Amor primeiro que nasceu da adoção
de suas terras como solo a me abrigar
de suas gentes como manda o coração.

O coração manda fazer numa conquista
declaração solene de amor rasgado
bem aparente e sempre estando à vista.

Estando à vista tão bela natureza
bênção de Deus pra todo friburguense
neste paraíso construo minha fortaleza.

Minha fortaleza de fé e habitat
dos sentimentos, do progresso e tudo enfim
que puder de Friburgo em mim guardar.

Nova Friburgo, 26/05/2000 (8h55m)

A Volta do Senhor

Enquanto o Senhor não vem, e não sei quando virá,
Enquanto o Senhor não vem a fome continuará presente,
Enquanto o Senhor não vem a dor insistirá em doer
Enquanto o Senhor não vem o coração sofrerá as mágoas,
porque o Senhor pode tudo;
pode até abrir os corações e pôr um pouco de jeito nas coisas sem graça.
Enquanto o Senhor não vem o pai continuará suando a camisa;
a mãe, beirando perigosamente o fogão;
a criança, brincando no barranco molhado
e o bebê, chorando mijado no chão.
Enquanto o Senhor não vem a conta da luz e da água terá que ser paga;
o carrinho, no supermercado, andará muitas vezes por entre as gôndolas
até abrigar alguns víveres;
o desempregado baterá nas portas de quem lhes pede ridículos currículos
e os políticos farão o discurso demagógico da vez pra enganar os trouxas.
Enquanto o Senhor não vem a gente tem que encarar a vida,
tem que fazer a despedida do descanso, esquecer o ranço,
ir pra roça, não fazer troça;
ir pra fábrica, mesmo sendo trágica
a experiência fabril de usar bombril todo dia para ariar a panela suja de intenção.
Enquanto o Senhor não vem só nos resta cantar hinos
fazer dos baixos morais apeninos espirituais
para que o som da canção chegue aos céus, e de lá goteje orvalhos de esperança,
sacuda a modorna da festança que não aconteceu mas nos deixou em ressaca.
Enquanto o Senhor não vem temos chance de pegar este trem,
locomotiva da felicidade, destino da humanidade, respiro de sanidade,
prenhe de possibilidade de encontrar no mundo além algo melhor que aqui não temos
Enquanto o Senhor não vem.

Nova Friburgo, 26/05/2000 (9h28m)

Tormento

As portas que se fecham para a vida
estão bem perto a cerrar.
Sem esperança, abandonei a triste lida
e vim contigo cantar.

Não sei se sou eu merecedor
de tudo o que a vida mostrar
mas deixei o cansaço e a pasma dor
e vim contigo cantar.

A despensa, entreaberta, está vazia
e uma fome tremenda a saciar
à procura de socorro fingi que ía
e vim contigo cantar.

Há meses exorcizo o desemprego
já não penso que o possa abandonar
me humilhei, chorei, feri o ego
e vim contigo cantar.

Tanta dor, as contas estão vencendo
e o credor na porta a cobrar
larguei os sonhos em mim quase morrendo
e vim contigo cantar.

As crianças em casa sem diversão
e os braços cruzados a esperar
resoluto ouvi a voz do coração
e vim contigo cantar.

Já não penso da vida o horizonte
um dia com esperança alcançar
e lembrei-me de ti, eterna fonte
e vim contigo cantar.

Nova Friburgo, 25/05/2000 (15h54m)

Friday, February 02, 2007

Poema do Rosto que não se Vê

Que rosto é esse tão disforme?
É o amor que ainda não chegou
e a vida assim, mortificou
a espera de vestir o uniforme.

Que rosto é esse tão disforme?
É a alma que triste está por dentro
e a vida se tornou tormento
até mesmo quando o corpo dorme.

Que rosto é esse tão disforme?
É a sina de quem já não tem paz
e na face, o belo, se desfaz
poucos gestos há que o reforme.

Que rosto é esse tão disforme?
É expressão de quem vive de mentira
e na vida, aos outros, provoca a ira
ficando sempre, a cara enorme.

Que rosto é esse tão disforme?
É a virgem que não conhece o amor,
não tem sentimento pra chamar de senhor
em coração, que da fonte, a graça entorne.

Que rosto é esse tão disforme?
Perfeito não é, será que há jeito?
Respeito e fé, encontro em seu peito?
Só Cristo faz que a formosura retorne.

Nova Friburgo, 25/05/2000 (10h55m)

Balada para as Tardes com Você

Ganhei por certo a ventura
de te ter bem junto a minha
insana rotina de tarde escura
pra colorir o que não tinha.
A cor dos teus olhos que definha
as sombras tristes deste lugar
já põe um fim a toda rinha
pois bom é ver você chegar!

Seus passos leves no corredor
me trazem, logo, sossego a alma
sabendo, certo, que o meu amor
agita o peito, mas pede calma.
Agora eu sei que o tempo espalma
num saque forçado meu jeito de amar
fazendo forte uma simples alga
pois bom é ver você chegar!

O sorriso fácil que em sua face
de um corpo frágil, adolescente
me traz frescor e em mim renasce
o pulsar da vida e de ser gente.
Só sabe mesmo, só mesmo sente
quem viu a luz de um certo luar
é como um raio, vem de repente
pois bom é ver você chegar!

Abrindo a porta, bem de mansinho
dizendo “oi”, linda voz a ecoar,
amor carmesim em pele de arminho
pois bom é ver você chegar!

Nova Friburgo, 25/05/2000 (10horas)

Era Louco, O Frederico!

Dia desses, em minha casa
contemplando a Noemi
não agüentei de felicidade
ao ver minha filha sorrir.
E disse pra minha esposa
a respeito de tudo isso
que ela aprendera primeiro
a linguagem do sorriso.

Não! Disse-me resoluta.
O sorriso não foi a linguagem
que ela adotou primeiro.
Bem antes do travesseiro
aconchegá-la no berço
o berro foi sua fala.
Sem se importar com o decoro
a sua primeira linguagem
foi a linguagem do choro.

É verdade, toda criança
sem falar qualquer palavra
é mestra na comunicação.
O Criador as dotou, cada uma,
com especial dom que, em suma,
improvisa a conversação.
E como num solo de jazz
o que toda criança faz
é ser original na canção.

Ai meu Deus, que tormento
a experiência do césar romano
de que agora eu me lembro.
Quis descobrir para o mundo
qual teria sido o primeiro idioma
falado pela civilização.
Preparou uma amostragem
em que vários bebês
ficariam sem comunicação.

Como era louco o Frederico,
o imperador romano
que propôs tal absurdo!
Hebraico, grego ou latim?
Pensou ser de utilidade
descobrir sua originalidade.
E sua ordem foi essa:
Alimentem as crianças
porém, nada de conversa!

E, então, as amas-de-leite
que receberam a incumbência
prestaram um juramento:
Não podiam emitir som,
deviam amamentar em silêncio,
para sucesso do experimento.
E ao fim da provação,
de um ano tão sofrido,
os bebês haviam morrido.

Ah, meu Deus, quanta estultícia,
embutida em tal notícia
sobre a intenção do czar.
Precisava alguns bebês
no meio de tanta dor
suas vidas eliminar?
Não sabia o imperador
que o primeiro idioma da terra
é a linguagem do amor?

Hoje, quando percebo a Noemi:
olhando, sorrindo ou chorando
me pergunto se estou amando.
Pois meu Deus, tu mesmo ensinaste
em seu Filho que morreu na cruz
sofrendo a dor que era minha.
Que o meu querido Jesus,
foi o grande embaixador
da linguagem primeira do amor.

Nova Friburgo, 10 e 21/05/2000 [18h39m]

Noite de Águas

Noites de águas -
vitrines derretidas do amor.
Travesseiros encharcados
em visões de manequins
decompostos.
A noite é uma dor.
Violeta, a sua cor.
A espada cortante
aponta o centro do cérebro.
Dâmocles se ouriça
empertigado nos sonhos da noite.
A água pinga.
A aguardente
queima a ponta da língua,
que puxa pra dentro da boca
a lágrima quente e salgada
que desce face abaixo,
que sulca o rosto sofrido,
que desperta compaixão.
O estado de Juan Pablo é febril.
O cobertor suga o corpo
molhando a cama.
E ele delira -
copo e frasco -
e sua ira
vai dando lugar a revolta.
O tempo faz volta
em sua cabeça.
Besteira!
Ele se mexe.
Está prenhe de inquietude;
assombra-se com a noite.
É preciso uma nova atitude.
O suor e as lágrimas se juntam
e Juan Pablo abre os olhos,
abre um sorriso,
dá sinal de vida.

Nova Friburgo, 06/05/2000. (20h50m)

Oração pelo Brasil

(A propósito das comemorações
dos 500 anos de Descobrimento)

Ó meu Deus, neste Brasil que comemora
os quinhentos anos da Esquadra de Cabral
faz com que o brasileiro sem demora
descubra o amor do Cristo em sua vida
abrace um movimento de fé que dê partida
ao sorriso fácil como de criança no Natal.

Se no começo do século dezesseis
um séquito de homens com o Navegador
ao içar as velas em alto mar aqui fez
nascer a nação que hoje atende por Brasil
faz vera, a Cruz, para este povo varonil
dando-nos a graça do Cristo Salvador.

Poucos dias após a chegada dos portugueses
Henrique Soares de Coimbra e os tripulantes
celebraram a cerimônia religiosa que tantas vezes
esta terra, os nativos, assistiram no escuro
foi no ilhéu da Coroa Vermelha, em Porto Seguro,
e assim a “terra brasilis” nunca mais foi como dantes.

Mas, meu Deus, na base primeira deste povo
composta de índios das tribos tupiniquins
fez-se necessário dela ser feito algo novo
pois trocavam preciosidades por espelhos
e até hoje por causa dos jesuítas e seus conselhos
trocam o Deus verdadeiro por ídolos e afins.

Quando em mil, quinhentos e dezessete
Na Alemanha de Lutero as teses surgiram
os fiéis, unidos, jogaram confete
para as portas espirituais que se abriram.
E por toda a Europa houve repercussão
do jeito novo de falar da Salvação.

Mesmo assim, pouco depois, na bélica Espanha
como braço católico da torpe Inquisição
Ignácio de Loyola, usando de artimanha
da dita Companhia de Jesus lança a fundação.
Foi em mil, quinhentos e trinta e quatro
que a contra-reforma usou desse aparato.

E o Brasil ganhou como brinde dessa história
um homem que o Papa ainda hoje quer santificar.
José de Anchieta, que está, bem presente na memória
como o “santo” que a um cidadão mandou matar.
E o que ganhamos nós com este estrupício
que de Jesus, na cruz, esquece o sacrifício?

Outro relato que as páginas do Brasil registra
do aventureiro Hans Staden que mesmo muito ágil
Pouco tempo depois, no litoral paulista
o alemão protestante foi vítima de naufrágio.
E quando os canibais o quiseram saborear
foi salvo por um Salmo que pôs-se logo a cantar.

Foi no dia dez de março, do ano de cinqüenta e sete
daquele século dezesseis num país de solo agreste
que o pastor Pedro Richier, calvinista de quatro costados
pregou o primeiro sermão protestante por estes lados.
O comandante Villegaignon autorizou esta celebração
da invasão francesa que fugia da Inquisição.

Se os franceses chegaram ao Rio, na Baía de Guanabara,
os holandeses, no nordeste, quiseram cumprir sua tara.
Chegaram então ao Recife e dominando toda a costa
expurgaram o catolicismo e a reformada igreja imposta
trouxe um tempo de prosperidade nas abas de Nassau
surgindo até sinagoga judia, da democracia liberal.

No século dezessete expulsos do nordeste brasileiro
os holandeses desistiram e fugiram do vespeiro
da incitação Católica, em tom de “Guerra Santa”.
Até que a realeza de Portugal, chegando por estas bandas
sob conselhos do embaixador inglês, que como bom protestante
quis fazer do Brasil freguês da Inglaterra tão distante.

Já agora se vivendo no Brasil um novo tempo
em mil, oitocentos e dez foi marcado um grande tento.
O monarca concedeu tal liberdade de culto aqui
que tinha crente convertendo até macaco e sagüi
mas tudo não passou de ardil com interesse comercial
dos ingleses e D. João VI, sob a égide imperial.

Em mil, oitocentos e dezenove; dia doze de agosto
o Rio de Janeiro viu surgir com grande gosto
a pedra fundamental do primeiro templo protestante.
Era o marco inicial do protestantismo de migração
que o país inteiro viu nascer naquele instante
como sucedâneo direto do protestantismo de invasão.

Quatro anos depois, mês de maio, dia três,
a terra do Morro Queimado como cidade se fez
ao chegar a grande leva de protestantes alemães
o Brasil brasileiro em Nova Friburgo algo bom
viu nascer para alegria da terra das nossas mães
no primeiro culto e sermão de Friedrich Sauerbronn.

Mas nem só de luteranos, sejam alemães ou suiços
faz-se um país evangélico e todos sabemos disso.
Então a Igreja Metodista dos Estados Unidos da América
no ano de trinta e cinco com muita coragem e oração
naquele século dezenove deixa uma grande marca
o novo movimento chamado: protestantismo de missão.

Se os primeiros missionários, marinheiros e comerciantes,
em inglês ou noutra língua pregavam para imigrantes
o fato é que pouco depois chega ao Brasil um casal
que em Petrópolis faria+ uma obra de grande porte
Robert e Sara Kalley, da Igreja Congregacional
amigos de Pedro II, fizeram mudar nossa sorte.

Naqueles tempos difíceis destas terras de exploração
é sabido o grande fato que no Brasil português
dominado pelo papado protestante não tinham vez
pois nos dias de Noé “casavam-se e davam-se em casamento”
e no Brasil para nascer, casar, morrer, ter comunhão
antes da chegada dos Kalley, para os crentes era tormento.

Os tempos foram passando trazendo maior abertura
para a colonização estrangeira que conquistou nossas terras
implantando vilas, cidades, nos litorais e nas serras.
E ainda no século dezenove, cinqüenta e nove era o ano
chegou o grande missionário que mudou nossa estrutura
Ashbel Green Simonton, o primeiro presbiteriano.

Nesta época inicial do protestantismo de missão
um fato se destacou, foi a conversão de um padre.
O famoso “padre protestante” abalou a igreja madre,
pois José Manoel da Conceição, logo testemunhando
em vários rincões do país, proclamou sua conversão
e os que punham a fé no Cristo ele ía batizando.

No ano setenta e um, um grande marco se deu
a colônia americana de Santa Bárbara d’Oeste
organizou a primeira igreja batista inconteste
ainda foi uma igreja voltada para o estrangeiro
mas que logo fez surgir, fruto do trabalho seu
a Igreja da Estação que alcançou um brasileiro.

Antônio T. de Albuquerque, o primeiro batista do país
era também um padre, que logo se converteu
e ingressando nas fileiras batistas não mais se arrependeu.
Com a chegada do primeiro casal de missionários
William e Anna Bagby, os batistas criaram raiz
no ano de oitenta e um, eram eles visionários.

Mas foi em quinze de outubro, um ano após a chegada,
que os missionários batistas deram a grande largada
em Salvador, na Bahia, como fruto primordial.
Junto com o casal Taylor, outro que desceu o Equador,
organizou a igreja que o oficial historiador
Reis Pereira reconheceu como marco inicial.

Já no início do século XX - em mil, novecentos e onze -
uma nova trombeta ecoou, fazendo tinir o bronze.
Surgiu a Assembléia de Deus, decana do pentecostalismo
com Daniel Berg e Gunnar Vingren, egressos da igreja batista
na cidade de Belém do Pará e como a história registra
reuniam-se nos porões da Igreja, pregando um novo batismo.

Já salientou a Sociologia, o gérmen da divisão
está presente no protestantismo desde a sua fundação.
Assim sendo, o século XX, viu nascer muitas igrejas
seitas e denominações se implantaram nestes trópicos
pregando da teologia, só as partes, apenas tópicos,
que beirando a heresia roubaram do bolo as cerejas.

Na segunda metade do século, em setenta e sete é formada
a Universal do Reino de Deus, uma igreja muito polêmica
que marcou o uso ostensivo dos meios de comunicação.
Edir Macedo seu bispo, fundador e patriarca
abusou do emocionalismo e a teoria sistêmica
deu lugar a um Evangelho barateado na televisão.

Assim, depois dos percalços do início de sua era
os evangélicos brasileiros cresceram em profusão
tornando-se o grupo religioso - que nestes anos dois mil
do Oiapoque ao Chuí, nas cidades ou entre feras
o estandarte do Evangelho colocado em ação
por quase trinta milhões - mais cresceu neste Brasil.


Mas meu Deus, agora sei, que o grande desafio
já não é o crescimento e nem mesmo aceitação,
pois ficou fácil ser crente no meio de tanta gente.
Peço, então, Senhor meu Deus, que nos poupe o desvario
de qualquer investimento que não seja a salvação
deste povo brasileiro que precisa ir em frente.

Permita, ó Pai, que teu povo aqui na terra humilhado
do passado arrependido pelos caminhos que trilhou
abandonando tua Palavra, esquecendo-se do amor.
Também reconheça seus erros e converta-se do pecado
te busque de coração e ao Cristo que se entregou
pois “Feliz é a nação, cujo Deus é o Senhor”.

Laranjais, RJ, 21/04/2000 (23h15m)
Nova Friburgo, RJ, 04/05/2000 (06h37m)

Viagens...

Enquanto penso
invento
ao sabor do vento
do circulador de ar
um jeito novo
de inflar uma visão de ti.

Um par de sapatos de pés trocados
e meias amarfanhadas
não me levarão a ti
a não ser pelos caminhos
tortuosos da trôpega
caminhada do não ser.

Nem tampouco a
calça do terno novo
que pendurada na boca do cofre -
só se fosse mágica -
me transportaria
pelo túnel do tempo
do te encontrar.

Quem sabe a gaveta
do criado-mudo, se aberta,
poderia abrigar
meu corpanzil.
Mas ainda assim,
neste desenho animado,
os mistérios se desfariam
no abri-la.

Volto ao vento.
E tento
de novo circular
com o ar que a mim chega.
O vento pode.
Porque seu frescor
em meu corpo seminu
aguça a imaginação
de ti a me tocar.

Laranjais, RJ, 23/04/2000 (07h13m)

Amalgamadas

Há mal
nas almas
que nas lamas
são qual lâmpadas
apagadas?

A nau
vendaval
atravessa
sobre vau
de lama
espessa.

Almas gamadas
amalgamadas
pastam
gamos e gazelas
em pradarias
galvanizadas
de amor.

E o mal
desaparece.
Brotam elos
amarelos
do ouro
poderoso
da Canção da Tarde.

Laranjais, RJ, 23/04/2000 (06h58m)

Quarto Vazio


Para Katinha

No quarto, a solidão presente.
E entre os móveis antigos, objetos inanimados,
meu coração bate forte a sua ausência.

Sinto falta do amor.
Quero embriagar-me em teu cheiro
mas a nuca branca e sedosa não está ao alcance.
Aquele curvilíneo corpo que me embala
nas noites dos sonos de minha mocidade
hoje está distante e eu me vejo só, neste quarto vazio.

Um suspiro de saudade e desejo agita meu peito
e do jeito que estou alvoroça este leito da solidão.

O móvel secular de madeira nobre
espreita do alto meu desatino.
Esborrachado na cama de casal do quarto vazio,
não te tenho para acarinhar.

E quando penso que a deixei preocupada
e nossos três filhotes no ninho vazio de pai
sinto raiva da solidão forçada
que os compromissos da vida me impõem...

Amo os teus seios,
mas os mamilos intumescidos
que tanto já suportaram meus indicadores,
hoje, no vazio desse quarto, são apenas pensamentos.

Posso agora sentir o teu calor virtual
trazido ao meu corpo pelos magnetos da imaginação.

E quanto mais desejo nesta noite teu corpo nu
em meus braços enlaçados,
mais sofro por saber que estou aqui
numa noite distante
diante de um quarto vazio de ti.

Laranjais, RJ, 22/04/2000 (00h26m)

Peças Esparsas

A amplidão do espaço
que me prende,
solta as asas
da imaginação...

Cada peça disposta em seu canto
faz-me ver a leveza das mãos
que a depuseram com
a arte do amor caseiro.

Não há vazios.
Há espaços
que se preenchem com móveis,
mas também há aqueles
que o corpo preencherá em movimento.

É quando penso em você,
por trás de cada detalhe
escolhido para compor
o ambiente que chamamos
“ninho de amor”.

As peças do quebra-cabeças
da casa nova
compõem um quadro perfeito
porque são amalgamadas de amor.

Laranjais, RJ, 22/04/2000 (23h28m)

Em Tom de Saudade

Um quarto. Um espelho pálido.
Imagem bruxuleante de mim mesmo
a dizer que na tua ausência
também sinto falta de mim.

Uma cama de casal grande demais
para os meus pensamentos.
Pequena, apenas para as emoções.

Lençóis. Cortinas.
Abraço o travesseiro
recendendo à fronha de guarda-roupa.
E o cofre gigantesco -
de ferro fundido de início de século XX -
avisa-me zombeteiro que o nosso amor
ficou trancado no segredo
particular de sua não-presença.

Olho para o forro do teto
de antigo lambris branco reformado.
O pé-direito alto fala-me
de antigos sonhos de nós dois
mas também lembra-me
da distância inatingível
de teu corpo agora.

Minha carne treme na rosácea
sensação das cores e cheiros
sutis do amor,
e sonho com o momento
em que nossos corações palpitantes
hão de se reencontrar no paraíso
do nosso lar.

Laranjais, RJ, 22/04/2000 (23h15m)

As Janelas dos Céus Que Abrem

As janelas dos céus que abrem
manhãs. Penso eu: o que são?
São o chorar de Deus pelo esconderijo dos
homens. O cadeado se arrebenta:
Abas largas e treliçadas se abrem sobre a
Terra: Engolem trevas,
dissipam nuvens carregadas,
reduzem o vento tempestuoso
à uma brisa mansa.
Uma criança com uma colorida
bola na mão, grita: É a paz!
E tudo se acalma.
Ao redor os raios que
atravessam as frestas do horizonte
se fazem bonança.

O sol escancara de vez
as janelas dos céus que abrem
manhãs de verão. E o céu?
É azul, penso eu. Tão azul
como um manto suave a cobrir o
firmamento. Mas, no momento,
o que se ouve é a voz
do menino moreno de pés descalços:
- O céu é espelho do mar!
Reparei.
Havia uma lágrima no seu olhar.
A voz do menino moreno falou de um
sonho: “Toda criança que desaparece
no mar é encontrada no céu.”
Sua irmãzinha se fora,
tragada pelas ondas,
e ele acreditava que o céu
era o Paraíso dos Afogados.

Formiguinhas humanas perambulavam
entrecaminhos,
bem abaixo das janelas dos céus que abrem
manhãs de trabalho.
É o azáfama da vida, penso eu.
E os homens e mulheres
mandam seus pequeninos pra escola,
distraem-nos com babás que jogam bola,
enquanto paramentados de profissionais e
perfumados de aparência,
carregam na pasta o ofício
e na consciência o desperdício
de vidas que não voltam mais.

As janelas dos céus que abrem
tardes. Penso eu: o que são?
São o pensar de Deus acerca dos caminhos da
humanidade. Alguém diz:
metamorfose -
e as lágrimas de Deus se transformam no suor dos
homens. Deus pensa no futuro de sua
Criação, mas o homem apenas guarda,
no bolso, o lenço já sujo da poluição.
Um adolescente com um caderno
escolar na mão, rasga folhas ao vento:
É a poesia!
E as páginas brancas daquela vida
clamam com paixão por uma
escrita qualquer.

As nuvens grávidas atravessam
as janelas dos céus que abrem
tardes de outono. E o céu?
É o salão de baile das simpáticas gestantes,
cujos filhos regarão a terra e
aparecerão nas árvores em formas e cores
multifacetadas.
Mas, naquele instante, o que se ouve
é apenas o farfalhar das folhas secas no chão,
açuladas pelos animaizinhos
que se divertem sem culpa.
Na copa das árvores, balouçam aves,
sibilam sons.
E o vento se encarrega de espalhar a música.
É o prazer! - Alguém disse alegre.
Não se viu, porém, o homem.
Estava na mesa do escritório
olhando o ar-condicionado desligado.

Blocos de concreto armado se empilham
nos espaços,
bem abaixo das janelas dos céus que abrem
tardes de embromação.
São as cidades - o arquiteto se apressa em dizer.
Mas as tardes que trazem a janela de Deus,
transportam também seu refletir.
- Não foi pra isso! A voz tronitroante sacode
as gentes.
Deus não está satisfeito com os rumos da humanidade.
Alguém falou: Liberdade!
Mas o homem, aprisionado pelo mercado,
já não consegue entender.

As janelas dos céus que abrem
noites. Penso eu: o que são?
São o cantar de Deus em seu grande amor
pela vida. O piano espalha teclas pelo
ar: pretas e brancas.
E os sustenidos e bemóis vão tocando a
noite. Luzes se acendem.
Fluorescentes cores crepitam no ar
fazendo palpitar nos corações a emoção.
Um jovem com uma raquete de
tênis na mão, joga bolinhas
amarelas ao vento. É o sonho.
E a pequena rede vibra aquelas
sensações, enquanto as
luzes da quadra se apagam
findando mais um treino de
esperança no futuro.

As estrelas risonhas saltam divertidas
por entre as janelas dos céus que abrem
noites de inverno. E o céu?
É um infinito misterioso onde
mergulham os olhares vindos,
qual setas, de corações apaixonados.
No momento, porém, o som é perturbador.
Faz-se ouvir o ronco das guitarras
produzidos nos bailes funks.
De há muito o romantismo desapareceu,
e amor virou sinônimo de sexo e
agressividade.
O volume de som atinge o ápice
enquanto no muro do clube
enfileirados rapazes urinam.
Um adolescente careca passa correndo
entre os carros. Pensa que é astro,
mas o crack que consumiu
faz dele um molambo sem rumo definido.

Pontos luminosos aproximam-se ligeiros
acompanhados de sons cada vez mais fortes,
bem abaixo das janelas dos céus que abrem
noites de diversão.
São as cirenes da Polícia em sua
blitz sobre a garotada do subúrbio.
Ninguém sai; ninguém se mexe.
Alguns eleitos são “premiados” com uma
carona até o Departamento.
Quem não é do ramo se petrifica
com os sons da noite,
que pecam por falta de musicalidade.
Engoli em seco:
- O homem tapou os ouvidos ao canto de Deus...

As janelas dos céus que abrem
madrugadas. Penso eu: O que são?
São o salvar de Deus do que restou da
humanidade. O Planeta se encolhe.
Toda energia se volta para sua gênese:
É Deus dando um tempo de restauração.
Ouço um lamento prolongado de bebê
de colo. Calo-me para ouvir o
movimento da madrugada.
Um adulto sai à rua, envolto num cobertor.
São passos lentos,
que parecem não ter rumo,
até que chegam à casa azul.
Coloca um embrulho de jornal no portão:
pode ser uma bomba, pode ser doação.

A lua prateada serve porções de
esperança, através das janelas dos céus que abrem
madrugadas de primavera. E o céu?
Acompanha o cardápio da lua, possibilitando
ao que busca um novo amanhecer
saciar-se de luz.
As árvores e plantas, do orvalho molhadas,
preparam-se para o novo dia.
Reparei nas cores.
Havia estilo nas flores,
mas uma me chamou atenção:
Amor-perfeito.
Como seria bom que os homens fossem assim.
Que as madrugadas de Deus se tornassem
laboratório de ações positivas,
substituindo a maquinação do mal
pela tal da oração.

Nos leitos, encolhidos, todos estão a dormir,
bem abaixo das janelas dos céus que abrem
madrugadas de restauração.
Quando o ser descansa no relógio
biológico do seu Criador,
dá chances à natureza de torná-lo melhor.
Um sorriso aparece no rosto daquele que dorme.
É o carinho de Deus em quem tem o coração em paz.
Mas as madrugadas também trazem sonhos,
comunicam mensagens.
- É a cruz! Alguém diz.
E no silêncio do Calvário, bem como
na madrugada das mulheres que foram ao Sepulcro,
o anjo de Deus a dizer:
As janelas dos céus sempre abrem-se
para a salvação de todo o que crê.

Nova Friburgo, 07-11/06/99

Caneta no Papel

Paralelas linhas no branco papel
enquanto aguardam
para elas, letras,
escuras, de contraste significante.
A ponta da caneta
teima em marcar o branco
enquanto a mente,
em névoa, não emite opinião.
O reflexo da luz no papel
opaco,
provoca o pisca-pisca
das pálpebras
que lembram você.
Os dedos tremem na espera da
inspiração. E o papel fica cheio
de pontos parados,
traços disformes,
mas a escrita mesmo não vem.
Enquanto não surge o fazer poético,
para de azul turquesa preencher
o papel,
meu pensamento voa, meu coração
se embriaga: penso em você, sinto você
e fico inebriado, em estado
de céu.
Neste momento ouço uma voz. E ela diz:
“-Amor meu!”
Ai meu Deus! Que emoção!
Dá vontade de sair correndo,
pulando e dançando,
compondo uma canção.
O vento bate frio nas maças coradas
e lembro que sou poeta e não
compositor.
Volto a sentir a caneta como
extensão dos meus dedos.
Levanto da mesa o papel.
Vejo-o.
Ele está cheio.
É a poesia...
Meu coração carrega a melodia
de quem flutua leve pelo ar:
alcançou a verdade do sonhar
e já não se incomoda tanto com
a realidade.
Poesia: Ela também nasce do amor.
Dobro o papel no bolso da camisa.
Borrifo perfume de leve
e fico feliz como neve de natal:
o sorriso na face me leva
ao encontro dela.

Nova Friburgo, 08,09/06/99

O Avivamento Quando na Igreja Passava

O avivamento quando na igreja passava
o vento. Os jovens sorrindo,
tocando instrumentos - e o avivamento quando na igreja
bailavam notas pelo ar.
Eram melodias no vazio. Os jovens
riam, cantavam - e as caixas soprando de dentro
os sons, com seus pulmões de tessitura
high-tech. E os jovens
comiam melodia pelo ar.
E eles riam no vazio e gritavam: era
o tempo do avivamento.

As crianças perambulavam entre bancos.
Alguém falava: vazio. A noite vinha
partir a boca do gasofiláceo, e as crianças
perambulavam na plataforma - alguém
falava: dinheiro.
No templo, elas riam - e o avivamento corria pelas
acústicas cordas vocais dos anjos peraltas,
e abriam-se os envelopes da boca do gasofiláceo.
Melodias - era alguém dizendo isto.
E os jovens sorrindo, comendo melodias no vazio.
Alguém falava: crianças. E era o tempo da abundância.

O dinheiro escorria na boca de madeira,
as crianças brincavam de Tio Patinhas
sobre as moedas e notas nos envelopes - e elas gritavam
na liberdade do ter.
Alguém falava: dinheiro, tempo.
As caixas soprando o som que os jovens
teciam, o Espírito fazia, e todos se amavam.
No aquário da sala dos jovens,
um peixe alegre e brincalhão, percorria
exultante, querendo romper os seus limites,
como uma antiga palavra dos cristãos: amor.
E alguém falava: é o vazio.
Os jovens riam dentro do avivamento,
comendo o vazio. O Templo
começava a se encher. A boca do gasofiláceo
ficava cada vez maior, era o não faltar.
A noite vinha pelo ar,
na sombra perambulavam as crianças.
E era o tempo da esperança.

E elas riam no ar. Comendo
a noite,
alimentando-se de melodias e de risos.
E alguém falava: velhos.
E o avivamento assoprava em silêncio -
na noite, no vazio -
abrindo brechas entre corações dormentes, lá na noite
dos jovens
que riam nos ensaios de louvor, regozijando,
comendo melodias. E alguém falava:
É o vento do Espírito soprando as canções de um amor
eterno. E os jovens
gritavam de alegria.

Do terreno baldio ao lado, o gado espreita,
e nos focinhos a ansiedade da fome de quem,
diferente das ovelhas, não consegue entrar no Aprisco.
Pelas janelas os violinos
passavam como o ar. E o avivamento nos jovens
voava pelo éter, enquanto o gado
cheirava a terra, comia o barro. Alguém falava:
fogo. E o gado não enxergava os violinos.

E as janelas estremeciam com a
passagem eufórica dos acordes divinos.
E os admiráveis jovens cantavam a sua canção,
como na antiga profecia, sonhando
os sonhos dos céus, nas bem dormidas
noites da paz, coroadas de sons multicores.
E no fogo os jovens, as crianças e os velhos
eram tocados pelo tempo do avivamento.

Alimentavam-se apenas de um livro preto
que alguém achara no empoeirado esconderijo.
E as palavras saltavam daquelas páginas
e quanto mais as liam, mais elas se tornavam
imprescindíveis.
Já não havia mais silêncio como o de antes:
o silêncio da alma era a voz do coração.
Partilhavam-se as emoções e praticava-se
a comunhão. Era o tempo da vida plena.
Os jovens, cantando sua esperança,
comiam os frutos do novo tempo.
O sabor era doce, as crianças brincavam,
os velhos se abraçavam.
Já não havia distinção entre manhã e noite.
E eram melodias no rosto alegre das gentes.
Avivamento - falava alguém. O vento passava -
e pela manhã/noite, em seus ruídos,

o avivamento expulsava o vazio.

Nova Friburgo, 6,7/06/99
(Calcado em texto de Herberto Helder in A Máquina Lírica)

Se o Sol Não Brilhar

(Dedicada a Alex & Tatiana neste momento tão difícil de suas vidas.)

Se o sol não brilhar, perguntarei:
- Por que isto aconteceu?
Hoje é o meu dia, e o céu não mostrou o seu clarão.
Mas os raios que inflamam a abóboda,
que misturam de cores meu olhar,
não estarão ali para me responder...
Não sei se chegaram e já se foram
ou se, simplesmente, não deram as caras.
Mas, caramba! Quem sou eu para saber do curso da luz?
Se o sol não brilhar, vou perguntar pra Jesus:
- O que queres me mostrar nesta escuridão?

Se o sol não brilhar, levantarei meus olhos.
Vasculharei o infinito em busca de um tênue brilho.
Sentirei falta da claridade
em que estivera mergulhado até então,
e que, por vezes, me fazia esquecido
da luz e do amor em sua origem.
Ah, se o sol não brilhar, terei vertigem.
Como o animal acuado, sentirei medo, frio e pavor.
Mas, meus olhos estarão levantados,
nos céus postos, com cuidado,
a procura do meu Redentor.

Se o sol não brilhar, poderei ver
muito além das nuvens que esfumaçam os sonhos
e embaçam a vida.
E de todas as dores, a mais sentida
será não mais poder encontrar esperança.
Porém, nas minhas andanças
por este mundo de Deus, seguirei adiante
tendo no peito um coração palpitante
e no rosto um olhar que desloca do efêmero e fugaz
procurando no Alto o que a alma apraz.
Então serei feliz como nunca sonhei ser...

Se o sol não brilhar, não importa:
Vou ter a luz dos olhos teus a me vigiar.
Tu velas por mim e no teu olhar
seguro estou, não vou cair.
Vou andar e vou parar. Seja o que fizer
seguirei em tua luz, tu és Jesus,
o Sol que brilha mais perto e, decerto,
caminharei nesta trilha sem qualquer empecilho.
E mesmo que o sol não brilhe
verei sobre mim a luz do teu amor
tu és o meu Senhor e eu sou teu filho.

Nova Friburgo, 04/06/99

Eu só Posso Imaginar

(Dedicada a Alex & Tatiana quando receberam em
seu lar o pequeno Juninho com Síndrome de Down)

Acordei nesta manhã de belo inverno serrano
com o coração disparado, pensativo, fazendo plano,
de encontrar-me contigo e tendo algo a dizer-te.
Só que o tempo passou e eu não te encontrava
caminhei pelas ruas, e o coração disparava
toda vez que o ontem, atroz me fazia perder-te.

As lágrimas daquela noite, teimavam em não secar
parecia fonte contínua, que não quer se esgotar
e eu pensando em ti, sofrendo imaginação.
A dor foi tua eu sei, mais forte que a própria morte.
Estavas, então, intrigada, decepcionada com a sorte,
achando cruel a vida e dorida a frustração.

Por longos nove meses, aguardas-te paciente
o bebê que em teus braços se apresenta tão carente
e a lágrima em tua face, ainda pergunta “por quê?”
Mesmo sendo teu pastor e também um conselheiro,
na cor dos meus olhos vistes, alguém que chorou primeiro
mas que agora já não sabe o que mais pode fazer.

Teu coração de mãe tinha um misto de sentimento.
É teu filho, o amarás, mas quem entende o momento
em que a alegria da chegada se mistura com o futuro?
Foi por isto que em teu seio, abrigando o pequenino
olhaste para o Alto implorando, a Deus por teu menino
que doente, ainda não sabe, como é alto este muro.

Foi quando alguém se achegando, como quem quer consolar
disse pra ti de mansinho: - “Nosso Deus vai te ajudar.
Eu sei o que tu sentes, não chores minha querida!”
Pensando com meus botões, cheguei logo a conclusão:
Ninguém sabe o que se passa, no outro, em seu coração.
Toda dor tem sua cor, ela é própria de uma vida.

Neste instante a voz de Deus, plena de amor eterno
ressoou forte em meu peito e o sentimento materno
me fez lembrar do Calvário e o grande amor sem par.
Ninguém sabe a dor imensa, de quem está a sofrer
somente o próprio Cristo, que sofreu sem merecer.
Na empatia de um irmão, eu só posso imaginar...

Nova Friburgo, 04/06/99

A Visita do Arcanjo

Certa noite,
encontrei um Arcanjo-marmanjo
tocando banjo
embaixo da cama do quarto azul.

Entre assustado e surpreso
sorri com tal desfecho
para um dia tão diferente:
um Arcanjo-marmanjo sorridente.

De um salto ele pulou
pra cima da cama e cantou
uma música cheia e estridente
sobre uma bicharada mui saliente.

Foi quando descobri que o anjo,
da elite especial dos arcanjos,
havia estado na arca de Noé.
Meu filho então retrucou:
Se assim foi, Arcanjo ele não é!

Jogando o instrumento de lado
o Arcanjo perdeu o rebolado
e puxando um documento do bolso, gritou:
Sou Arcanjo e toco banjo na orquestra do céu
para alegrar a vida dos humanos.

- Calma, não fique zangado!
Disse-lhe, conciliador.
- Canta, então, a sua história,
conta pra gente a sua glória!

O Arcanjo pegando o banjo
arranhou uns acordes
e a noite virou festa na minha vizinhança.
Uma-a-uma as luzes foram acendendo as casas
e a música do céu invadiu os corações.

O mesmo Arcanjo que fechou a porta da Arca por fora
para ninguém entrar sem autorização divina,
abrira naquela noite as portas de muitas casas e corações
para um concerto que tornaria mais leve
o sono nas noites de muitas gentes...

Nova Friburgo, 26/05/99

Tuesday, January 16, 2007

Da Janela do Hotel

Da janela do hotel
Vejo janelas opostas
De prédios eqüidistantes
E gentes pensativas
Amoldando os parapeitos.

Debruçam-se no espaço da vida
Entre os pensares que os prendem
Ao quarto desalinhado
E aos ares promissores do além-janela,
Para os quais essas gentes ainda não possuem asas.

Uma rolinha assustada voa próxima de mim.
Acompanho-a com os olhos
E meu corpo se comprime na parede,
Querendo ser Jesus, querendo algo mais.

Se o mundo é presídio,
Os espaços que o homem constrói
São solitárias malcheirosas e sufocantes de se viver.

Prefiro os espaços de Deus.
Onde há sempre sinuosos caminhos que se encontram,
Formas que se completam,
Montanhas que abraçam vales,
Planícies que abrigam campos,
Rios que percorrem distâncias e dão a volta ao mundo
Num tempo infinitamente menor que 80 dias.

Da janela do hotel não vejo tudo isso.
Nem sempre encontro o enquadramento perfeito
Para fugir das janelas opostas.

Mas este Ser que me domina
Faz abrir-se em mim uma janela
Por onde não passam apenas idéias:
Viajam sonhos, descortinam-se visões de coisas
Que nem sempre os olhos vêem da janela do hotel.


Goiânia, 22/01/98.

Três Perguntas, Um Só Coração!

In Memorian de Júlia Soares Almeida

Para que servem os lenços?

Conhecia-os há muito tempo,
mas foram poucas as vezes
que os tive perto de mim.
Alguns verdes, outros marrons,
mas em sua maioria, brancos.
Lisos ou de listras multiformes

Para que servem os lenços?

Das suas utilidades
há uma que não me atrai:
Tê-lo comigo gripado.
Há outra que não coincide:
Tê-lo comigo suado.
E o suor caminha no rosto
porque não há lenço no bolso...

Para que servem os lenços?

Mas houve um momento difícil
em que tê-lo comigo foi preciso
para aparar um pranto incontido
de um ser querido que se foi.
Se tornou preciso carregá-lo
porque as lágrimas eram certas!

Para que servem os lenços?

Apenas para enxugar o rosto
e conter o pranto constante
das quentes lágrimas incessantes?
Para esconder-se da triste realidade
de que alguém que amo partiu
e não consigo entender?

Para que servem os lenços?

Servem também para acenar
um adeus que é até-logo,
pois existe a certeza
de um reencontro feliz
com aquela que nesta vida
soube com Cristo andar.
Para que servem os lenços?

Para encerrar uma página
de choros e tristezas
quando serão preservadas
apenas as recordações
de minha querida irmã
vida pura e tão bela
onde Cristo foi Senhor.

Sua amizade tão bonita
no meu coração perpetuarei...

Para que ela se foi, Senhor?

Não quero perguntar-te, ó Deus:
- Por que ela se foi?

Devem ser muitas as respostas;
difíceis e complicadas!

Quero indagar-te, ó Pai:
- Para que ela se foi?

Foi para chamar a atenção
para o meu primeiro amor a Ti?
Foi para despertar em mim
a paixão pelas almas?

Ainda não sei, Senhor,
o que mais queres me mostrar...

Pensei comigo mesmo:
- Júlia, sua morte
não há de ter sido em vão!

Hei de ser diferente daqui pra frente.
Quem sabe, melhor pessoa, melhor crente.
Mais interessado no bem-estar do próximo.

Mas, continuei pensando
e esta reflexão me levou
à morte de Cristo.
E, então, entendi tudo:
- Cristo, sua morte
não há de ter sido em vão!
Hei de ser uma nova pessoa de agora em diante.
Um crente mais fiel, do pecado mais distante.
Mais amigo do Evangelho!

Por isso, quero declarar-te agora, Senhor:
A minha vida a Ti pertence.
Quero consagrá-la para o Teu serviço,
pois como disse-me ela,
mandamento das Direitos Humanos:
“Procure apresentar um excelente serviço.
O que realmente vale em nossa vida
é aquilo que fazemos para outros.”

Senhor!
Não sou meu, usa-me como quiseres!

De onde vêm as lágrimas?

Não sei!

Estou aqui parado
e elas estão teimosas,
quentes a fluir...

Por certo algum livro
há de me responder!

Ah, aqui está:
“As lágrimas vêm
das glândulas do olho
e são gotas do humor
por elas segregadas”.

Mas não é nada disso!

As lágrimas vêm da minha dor.
Sofrimento / se pa ra ção,
saudades do coração.

As lágrimas vêm do meu interior,
do profundo do meu ser.

Vêm da minha tristeza,
da situação de incerteza
sobre o que virá daqui pra frente.

Vêm da minha angústia.
Vêm das palavras que não foram ditas e
dos gestos que não foram sequer esboçados
em direção a esta amada que partiu.

As minhas lágrimas são fruto
das recordações tão presentes
desta querida que se foi.

Mas estas lágrimas são passageiras -
eu tenho certeza disto -,
pois confio em meu Deus.

A minha alegria voltará,
pois ela foi vitoriosa
e Deus me dará respostas
do porquê as lágrimas vieram...

Niterói, 22/02/1990.

Quando a Morte Passa Perto...

In Memorian de Jovelina Barros Faria

A gente nunca espera por ela,
mas, quando vem:
Ou passa junto ou passa perto.

É a morte
que, no fundo,
não dá sinal de alerta:
Ou leva a gente
ou leva alguém que a gente quer que fique,

...quando ela passa perto!

Aí se descobre
que ainda não se pensou nela.
E isto,
não por falta de consideração,
pois geralmente ela não precisa de convite:
É intrusa,
chega sem ser convidada!

Não se pensou nela,
porque ela tem andado por outros ares,
tem visitado outros corpos,
tem conquistado outras terras:
O seu perfume tem passado longe...
Mas, tudo é diferente...

...quando ela passa perto!

Você se fere,
se machuca,
se agride;
para entender o que ela é,
para saber porque ela vem,
para compreender a razão dela ter levado,
exatamente, quem você nunca imaginou
ou quem você gostaria que não fosse,

...ao menos dessa vez!

...mas ela passou perto!

E você reivindica,
grita,
clama.
Chega a falar em injustiça!
Mas não tem jeito:
É sem retrocesso.

...pois ela passou perto!

Surge então o vazio.
Uma ausência melancólica
das palavras que esse ausente apenas balbuciou,
dos atos que ficaram congelados no ar,
dos gestos de carinho que não se conseguiu abraçar!

As ausências trazem lembranças
e as lembranças, saudades:
Das palavras, atos e gestos de carinho
que lhe couberam como parte dedicada.

Quando ela passa perto:
“Tudo muda / tudo se transforma!”
Só ela é sempre igual:
Indiferente!
Não escolhe gente:
Quem seja,
como seja,
onde esteja.

...quando ela passa perto!

...ou passa longe!

Porque ela está sempre passando.
Mas a gente só sente
ou pensa nela...

...quando ela passa perto!

Niterói, 05/02/1988 (1h25m).

A Sombrinha da Sobrinha

A Isabela Soares Antunes

A sobrinha fez aniversário
e ganhou muitos presentes.
O mais belo presente dela
é uma sombrinha amarela.

A sobrinha fez três anos.
Três anos a sobrinha fez.
Sem chuvas dos arcanos
nesta terra de burguês.

Na casa a pequena menina,
na mão a sombrinha amarela
o parabéns não desafina
na festa que fazem pra ela.

Depois desse aniversário
indo a sobrinha pra Igreja
não irá para o berçário
com seu bolo de cereja.

Irá com a sombrinha na mão,
a sombrinha que é tão bela,
muita paz no coração
e uma sombrinha amarela.

Amarela de bolinhas:
azuis, rosas e pretas.
Esbarrando nas pessoas
que fazem muitas caretas.

Mas ela toda garbosa
por mais um ano ter feito
segue firme e bem cheirosa
dando pra tudo seu jeito.

E os pais cheios de orgulho
um sorriso bem nos lábios
ouvem todo o barulho
da sombrinha e alfarrábios!

Nova Friburgo, 03/12/2005 (18h40m).

Que Triste o Abacaxi

Que triste o abacaxi:
Está sempre sorrindo,
Mas está sempre só!

Que triste o abacaxi:
Tem cara de riso,
Em solidão de dó!

Ninguém poderá
Fazê-lo parar de rir...
E, como parar,
Se nasceu para abacaxi?

Sorriso solitário
Esse desse abacaxi.

Sorriso solitário e belo
Embora, amarelo,
O sorriso desse abacaxi
Pé-de-chinelo!

Ah, esse abacaxi!
Abacaxi serelepe
Jeito de moleque
Que na rua faz xixi.

Que triste o abacaxi,
Abacaxi sorriso.

Separado do riso:
Abacaxi só!

Campos dos Goytacazes, 08/07/2004 (15h05m).

Peixinho Doce

O peixinho chegou a casa
No saquinho plástico da escola
Pelas mãos de Noemi.

O peixinho era vermelho
E foi direto pro aquário
Fazer minha filha feliz!

O peixinho vermelho,
Do nariz amarelo,
Nadou muito naquele dia.
E nos outros também!

Noemi colocava ração
Com a ponta do dedo
Sem nenhum medo
De ir junto o coração!

Isso foi do primeiro ao sexto dia.
No sétimo...
O peixinho vermelho,
Do nariz amarelo,
Descansou!

Deve ter nadado muito!

Quando acordei na manhã
Do sétimo dia,
O peixinho vermelho dormia
Dentro da tampinha amarela,
Aquarela, aquário-cela de seu mundo
De refrigerante doce, vagabundo!

Campos dos Goytacazes, 08/07/2004 (15h35m).

O Abacaxi e a Tartaruga

O abacaxi sonhou
Que era tartaruga
E saiu andando.

A tartaruga,
Que era velha nos gomos
Do casco de sua sabedoria...
Ficou parada.

Não precisou
De muito esforço!

Só ficou olhando,
Com sua carinha de riso
Em pescoço largo,
Aquele bicho sem pernas
E uma coroa enorme na cabeça
Andando equilibrista.

Tudo aquilo pareceu
Familiar para ambos...

Afinal de contas...
Se o abacaxi tem gomos na casca,
A tartaruga tem gomos no casco...

Só não sei quem vai
Descascar o abacaxi dessa história!

Campos dos Goytacazes, 08/07/2004 (15h20m).

A Bota da Beta

Betinha tinha uma bota
Toda abertinha do lado.
E sempre que ela bota,
A bota no pé machucado,
Betinha grita de dor!

A bota que Betinha usa na festa
É a mesma que ela usa
Quando quer ir ao culto...

Ganhou de um amigo oculto
E é feita de couro simulado.
E quando a bota aperta
No pé de Betinha -
A bota é apertadinha -,
Dói um bocado!

Quem pode ajudar a Betinha
A colocar a bota em seu pé?

Não acuse a Betinha de mal-cheirosa.
Ela não tem chulé.
É apenas uma menina vaidosa!

Campos dos Goytacazes, 08/07/2004 (20h30m).

O Rio e a Pedra

O rio ria da pedra
Que parada ficava
Enquanto ele se movia...

A pedra ficava parada,
Petrificada,
Não entendendo a zombaria...

E o rio ria solto,
Passando ligeiro,
Pela pedra parada.

E a pedra não se movia.
De seu jeito continuava,
Enquanto o rio ria...

É que a pedra sabia,
O que o rio nem suspeitava,
E por isso só ria.

Na curva daquele ar,
O rio que ria acabava
E suas águas viravam mar!

Campos dos Goytacazes, 08/07/2004 (15h55m).

Aventuras em Série

Resolvi, de repente, abrir este espaço para publicar as minhas poesias. É uma aventura abrir o co-ração e descortinar idéias, sonhos, pensamentos, dissabores e outras coisas mais que brotam da alma, da inquietação, da fé e da espe-rança que se traz no peito.
Espero que este seja um espaço de compartilhamento e que tudo que aqui for publicado possa, de alguma forma, contribuir para edi-ficação, enlevo, divertimento e re-flexão por parte daqueles que ousa-rem por estas paragens...
Seja bem-vindo, como eu também estou me sentindo. Seus comen-tários serão sempre bem-vindos. E espero poder retribuir com mais textos interessantes. Para mim, escrever é uma imposição interior. É necessário estravasar o que a alma quer falar. Meus textos falam do que penso e percebo. A percepção do que ocorre ao redor está aí.